Crônica de Nelson Rodrigues, sobre a fé e a superstição Botafoguense e a ligação do Botafogo com o sobrenatural.
O DEUS DE CARLITO ROCHA
Chegou, enfim, o momento de fazer de Carlito Rocha o meu personagem da semana. Quer queiram, quer não, ele está atrelado ao fabuloso triunfo alvinegro sobre o Fluminense. E aqui pergunto: — qual teria sido a contribuição carlitiana para o título? Eu próprio respondo: — Carlito ligou o jogo ao sobrenatural, pôs Deus ao lado do Botafogo e mais do que isso: — pôs Deus contra o Fluminense.
E, com efeito, três ou quatro dias antes do clássico, um jornalista foi provocar o velho Rocha. Ora, Carlito nunca teve meias medidas, nunca. Bastaram duas ou três perguntas estimulantes para que, dentro dele, rugisse a imortal paixão botafoguense. Em vez de soltar declarações convencionais, o homem abriu a alma de par em par. Contou, entre outras coisas, que vira e ouvira Deus. É raro, muito raro, que venha alguém a público confessar uma visão. Geralmente, temos vergonha e, mais do que isso, medo das 0nossas visões. E, antes de mais nada, cumpre reconhecer a coragem de Carlito Rocha. Disse ele que Deus viera anunciar-lhe a vitória do Botafogo.
Um vaticínio divino é algo mais que um palpite de esquina. E, no entanto, vejam vocês, nem o jornal que publicou a reportagem, nem o leitor, nem a torcida, ninguém acreditou, nem em Carlito, nem na visão, nem mesmo em Deus. As declarações do velho Rocha, tão honestas e incisivas, pareceram a nós, impotentes da fé, uma simples e cruel piada do jornal. E um amigo, pó-de-arroz como eu, veio perguntar-me:
— Viste o Deus de Carlito?
Eu não tinha visto o jornal, ainda. Mas as palavras do meu amigo ficaram ressoantes em mim: — “Deus de Carlito!”. E, subitamente, eu compreendia o seguinte: — não há um Deus geral, não há um Deus de todos, não há um Deus para todos. O que existe, sim, é o Deus de cada um, um Deus para cada um. Por outras palavras: — um Deus de Carlito, um Deus do leitor, um Deus meu e assim por diante. Ao falar, com um esgar de pouco-caso, no “Deus de Carlito”, o meu amigo anunciava uma verdade, sem querer. Eu imagino que, até o dia da batalha, tenham dito o diabo do velho Rocha. Riam dele, de alto a baixo. Pobres de nós, que não sabemos respeitar as grandes paixões! E ninguém queria perceber o que era óbvio: — graças a Carlito, criava-se uma relação entre o Botafogo e o sobrenatural, e o clássico decisivo passava a adquirir um pouco de eternidade.
Vem o jogo. Com a nossa obtusidade de ateus, tínhamos da batalha uma visão crassamente realista. Só cuidávamos dos aspectos técnicos, táticos e físicos. Eu próprio vivia perguntando, a um e outro, na minha aflição de pó-de-arroz: — “O Leo joga? O Leo não joga?”. Em suma: — pensava em Leo, em Pinheiro, em Cacá, ou Valdo, mas não chamava o “meu” Deus. Ao passo que o velho Rocha é sábio quando acrescenta a qualquer pelada do Botafogo a dimensão de sua fé.
Eu não vi, nem ouvi, durante toda a semana do jogo, um tricolor falar em Deus. E por quê? Pelo seguinte: — achamos que Deus não se interessa por futebol! Portanto, nós o excluímos das atribuições da nossa torcida. Domingo, nunca houve um clube tão sem Deus como o Fluminense. Ora, nenhum brasileiro consegue ser nada, no futebol ou fora dele, sem a sua medalhinha de pescoço, sem os seus santos, as suas promessas e, numa palavra, sem o seu Deus pessoal e intransferível. É esse místico arsenal que explica as vitórias esmagadoras.
Por tantos motivos, eu acredito, piamente, na contribuição de Carlito para o perfeito, o irretocável triunfo alvinegro. E, de resto, como não gostar do Deus do velho Rocha? Deus tão cordial, íntimo, terno, que se incorporou à torcida botafoguense, que viveu com a torcida botafoguense aqueles eternos noventa minutos! Enquanto nós não tivemos nada, não tivemos ninguém. Mais esperto, o Flamengo entretém as suas relações com o sobrenatural, através de são Judas Tadeu. E quanto a Carlito, ninguém merece tanto como ele, agora, o título de meu personagem da semana.
[Manchete Esportiva, 4/1/1958]
Crônica de Nelson Rodrigues
Narração: Paulo César Pereio
Vídeo produzido pelo Canal 100
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