Redação Alvinegra

Emocionado, Luiz Mendes relembra histórias da locução esportiva


Maria Clara Cardona - 6/08/09 às 15:32

Debate na ABI resgata memórias do jornalismo e do futebol brasileiro

luismendes

Jornalistas e amantes do futebol relembram melhores momentos da locução esportiva

Pernas frágeis, memória intocada e narrativa impecável. Não era de se esperar que a “enciclopédia do futebol”, já aos 85 anos, ainda conservasse bom humor e conhecimento sobre o jornalismo esportivo no rádio. No entanto, Luiz Mendes, um dos maiores locutores do Brasil foi, na última terça-feira, 4, personagem principal no debate Futebol-arte: A arte do Futebol, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

O evento contou também com a presença do jornalista e tricolor Álvaro Oliveira Filho, da Rádio Globo, e do professor e sociólogo Ronaldo Helal, autor de “A Invenção do País do Futebol”, na mesa de debates. Também da Rádio Globo, o jornalista Eraldo Leite marcou presença.

“Comentarista da palavra fácil”. Foi assim que Mendes foi apresentado à pequena plateia que encheu a sala da ABI. Relembrando as dificuldades de sua época, o jornalista, um dos fundadores da Rádio Globo, falou sobre a sobrevivência do rádio junto à expansão da televisão.

- Os avanços eletrônicos foram muitos. Era muito difícil trabalhar antigamente se compararmos com o cenário atual. Os números nas camisas não existiam. Tínhamos que reconhecer os jogadores pelas características físicas. O Jair Rosa Pinto, por exemplo, eu sabia quem era por causa das pernas finas. E mesmo com tantos sacrifícios, nós narrávamos sem saber se estávamos indo ao ar. Só ao final da transmissão, quando chegávamos ao hotel, é que recebíamos a notícia. Se fosse positiva, nós íamos comemorar – divertiu-se.

A busca por um espaço

Primeiro veículo de comunicação, o rádio surgiu em meados de1922, tornando-se, com o tempo, um verdadeiro integrador das massas. Com a baixa qualidade da transmissão, a informação podia percorrer longas distâncias e alcançar diferentes públicos. Mesmo com o passar dos anos e o surgimento de novas mídias, o mídia radiofônica conserva a sua magia e um público ouvinte fiel.

Sem a ajuda da imagem, como na televisão, o rádio depende da interpretação de cada um, criando assim, inúmeras percepções sobre um mesmo assunto. É nisso que acredita o sociólogo Ronaldo Helal. Para ele, a transmissão esportiva no veículo incentiva a imaginação de quem ouve e é uma dos responsáveis por criar mitos.

- A mitologia do futebol brasileiro não existiria se não fosse o rádio. O Brasil, antigamente, não tinha ideia de como formar uma nação. Até que o futebol surgiu como uma peça integradora dessa multidão, dando a sensação de unificação – comentou.

A importância e a contribuição histórica do rádio tornam-se, cada vez mais, indiscutíveis. Helal acredita que parte disso se dê devido à grande influência do rádio nos ouvintes. Até mais do que a televisão em seus telespectadores.

- Eu acredito que o rádio tenha maior influência do que a própria imagem. Na TV, a imagem mostra o lance. Você vê e confere com seus próprios olhos, não há como contestar. Já o rádio, sem a imagem, o ouvinte acredita no que o locutor e o comentarista falam. No estádio, o aparelhinho é a extensão dos sentidos – esclarece.

Mesmo com sua popularidade, é preciso muita prática para ouvir e entender uma transmissão radiofônica. A velocidade da locução, muitas vezes, para os acostumados ao ritmo mais lento da mídia televisiva, pode confundir. E essa é uma das provas que confirma o quanto a TV busca se adaptar às velhas técnicas dos radialistas.

O gol narrado de forma longa e contínua, uma criação de Ribeiro Júnior, renomado locutor paulista, teria sido uma das adaptações que a televisão fez. Mesmo com a imagem, mostrando a bola na rede, o grito é uma forma de trazer emoção para a transmissão.

Lembranças que marcam

E foi assim, em um ambiente criativo e bem humorado que o radiojornalismo esportivo criou suas raízes. Expressões como “Está lá, um corpo estendido no chão”, de Januário de Oliveira, e efeitos sonoros – vinhetas de placar e tempo restante de jogo, por exemplo – eram uma forma de encantar ouvintes e modernizar as técnicas jornalísticas do veículo.

Segundo Álvaro Oliveira Filho, jornalista da Rádio Globo, para muitos, a locução dos radialistas são mais informativas do que as feitas pelas emissoras de TV.

- Em geral, o repórter do rádio é responsável por acompanhar diariamente um clube em específico, enquanto o da televisão, às vezes cobre um, outras vezes, outro. Fora que a transmissão do rádio é bem mais emocionante – opina.

Mesmo sem o apoio da imagem, a imprevisibilidade do rádio e a paixão que ele transmite ainda encantam brasileiros apaixonados por futebol. Asfixiado pela TV, que vêm movimentando as massas, o rádio busca sobreviver. Para isso, a internet se coloca como uma forma de inovar e, assim, resistir à pressão.

- Se você analisar bem, a TV faz tudo o que a mídia radiofônica fazia antigamente, só que com o apoio da imagem. Nós tentamos nos modernizar para continuarmos existindo. Com salas de chat no site da Rádio, enquetes e perguntas enviadas pelo ouvinte, tentamos mudar. Sabemos que precisamos disso – disse Oliveira Filho.

Mudanças

Mesmo com a ascensão da TV, a necessidade de existirem diversos meios de comunicação ainda é grande, inclusive pelo ritmo acelerado de vida. E é essa grande quantidade que distingue os velhos dos tempos atuais. Para Mendes, o futebol, mesmo criticado por muitos, continua buscando se modernizar e realizar o imprevisível.

- O futebol ganhou muito em velocidade e marcação. Os goleiros também são muito mais bem treinados do que antigamente. Alguns até batem falta. Além disso, o aquecimento é uma coisa nova para as equipes. Ele trouxe resistência e velocidade ao jogador que, acostumado a correr 7 km durante um jogo, passou a correr o dobro – contou.

O evento terminou com o sorteio de livros para o público presente. O próximo encontro será em setembro, no dia 8, segunda semana do mês, das 18h30m às 21h. O tema será Futebol e Artes Plásticas e terá a presença de convidados ilustres. A entrada é franca.

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  • ALESSANDRO disse:

    LUIZ MENDES É UM MESTRE.
    UM COMENTARISTA SÁBIO E UM NARRADOR FORMIDÁVEL.
    ESTE SENHOR É UM PRESENTE DIVINO PARA AQUELES QUE ADMIRAM O FUTEBOL.
    SE NÃO NASCESSE HOMEN, NASCERIA UM LIVRO QUE CONTA AS MAIS BELAS HISTÓRIAS SOBRE FUTEBOL.